quinta-feira, 6 de novembro de 2008

um amigo íntimo



Um amigo íntimo - de si mesmo.
O amigo que se torna inimigo
fica incompreensível;
o inimigo que se torna amigo
é um cofre aberto.
A amizade é um meio de nos isolarmos da
humanidade cultivando algumas pessoas.
É preciso regar as flores sobre o jazigo
de amizades extintas.
Como as plantas,
a amizade não deve ser muito
nem pouco regada.
Certas amizades comprometem
a idéia de amizade.

Carlos Drummond de Andrade

é ruim só ter amigos com quem não se pode ter intimidade.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

De meia e havaianas

Primeiro, a chave tetra. Depois, a correntinha e, por último, as duas voltas na chave da fechadura. Abri a porta pra jogar o lixo fora. Coloquei a sacolinha junto das outras inúmera sacolinhas, quando, de repente: pum! só senti aquele frio na barriga e corri pra ver o que eu já tinha dado conta: estou trancada pra fora. A porta não abre por fora se não estiver com chave. Eu, de chinelo havaianas, meia, calça de moletom, uma blusinha e cabelo molhado.
E agora? Bem, a dona do apartamento mora no prédio ao lado, mas qual apartamento??? tento abrir a porta, com uma esperança que não existe. Pra qual vizinho pedir ajuda? Não vi nenhum até hoje. Ando pra lá e pra cá no corredor quando decido ver se tem alguém lá embaixo. Quase caio da escada. Ok! Estou em pânico.
Decido ter coragem pra subir e bater na porta de qualquer vizinho que seja. Me deparo com o da porta da frente saindo de casa: discúlpeme, puede ayudarme? No, lo siento, estoy apurado, tengo que trabajar.
Saio do prédio junto com ele, porque a porta do prédio também só se abre com chave (não existe portaria). Estou do lado de fora, com uma única informação: a dona vive no 6º andar. Tenho 8 opções: do A ao H. O frio no cabelo molhado, congela. Começo a apertar todos os botões dos apartamentos até que um sujeito desce e pergunta se apertei o 6º C. Sim, apertei, porque não sei qual é o apartamento da Maria. Fomos até o zelador, que até então não sabia onde ficava, e ele me informou: é o 6º H. Gracias, muchísimas gracias. Maria estava e me entregou outro molho de chave. Nunca mais abro a porta sem a chave na mão.

sábado, 23 de agosto de 2008

quando a vida faz a gente parar

Tem certos momentos da vida que a gente precisa parar. E quando a gente nao pára, alguma coisa acontece pra que a gente pare.
Quando resolvi fazer uma pós no exterior nao tinha qualquer intençao de parar. Muito pelo contrário, queria voltar a estudar, trabalhar ainda mais pra fazer mais dinheiro. E tudo isso está acontecendo (exceto a parte de fazer mais dinheiro). Voltei a estudar, estou trabalhando bastante, mas, de alguma maneira, eu parei.
Viver sozinha, totalmente sozinha, faz a gente parar e olhar pra si de um jeito diferente. Talvez se eu estivesse desempregada, sem estudar, mas no ambiente de sempre, vendo as mesmas pessoas, talvez nao estivesse pensando tanto como estou agora.
Uma amiga hoje me escreveu e nao poderia descrever melhor o que estou vivendo. Estou fazendo os meus horários, cantando minhas músicas sozinha, dançando quando tenho vontade e, por incrível que pareça, às vezes emito um som só pra nao ter de passar o dia sem dizer quma palavra sequer.
Estar sem companhia, sem sua língua materna nos traz a uma imersao estranha. Ela vem sem motivo e acaba transformando um milhao de coisas. Nao estava buscando isso, nao vim buscando exílio ou uma "fuga da realidade". Vim estudar e ganhar experiência internacional. Mas to ganhando outras coisas que talvez me marquem por muito mais tempo.
A revisao de valores, de sonhos, de desejos acontece sem mais nem menos. O que estou fazendo? O que eu fiz? O que pretendo fazer? Nao queria estar me fazendo essas perguntas, mas eu estou. Pelo simples fato de nao ter mais o que pensar. Mesmo pq, o pensamento é um dos poucos lugares em que se consegue escutar a própria língua. Todas as mil coisas que estao acontecendo simplesmente levam a essas perguntas. A essa coisa de parar e rever.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

segredos

ela tem 35 anos, é virgem e filha de atriz pornô.

ela planeja há 24 anos o funeral do marido.

ele admite que quem salvou a vida de alguém foi seu amigo e ele não.

ele é bombeiro e teme o dia em que tiver de ser corajoso como as pessoas esperam que seja e simplesmente não sê-lo.

ele ajudou seu pai a forjar a própria morte.

ela usa o banheiro masculino no trabalho para fazer o nº2.

ele escreve poemas anônimos e manda para sua revista.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

medo de mim mesma

– tenho medo de você, ana.
– meu deus!! pq as pessoas têm medo de mim? eu não mordo.
– mas vc faz umas caras enquanto a gente te conta coisas.
– ai... mesmo?
– só que é engraçado que a gente espera uma reação sua quando termina de contar e você tem outra. me divirto horrores.
– haahaha ok. pelo menos sou imprevisível.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

até 2010

um ano de novas perspectivas. foi isso que eu li, que me disseram. dá medo pensar que as novas perspectivas, para mim, significam algumas perdas. mas é preciso continuar acreditando que é para melhor. que os seis anos que se passaram serão uma lembrança suficientemente forte para segurar os próximos dois anos que virão. dói. tá doendo demais saber que posso perder pra sempre. medo de não sentir mais o friozinho na barriga. não quero te forçar a dizer. mas até agora é o jeito que achei para que você não esquecesse. e eu também não. mas digo, mais uma vez, tá doendo. e o coração tá apertado.